CALL FOR PAPERS | Tecnologias inclusivas e inteligência artificial em educação
Publicada em 2026-04-24Objetivos e âmbito do número especial
Desenvolver uma aplicação de tecnologia educativa que seja inclusiva desde a sua conceção não é uma tarefa simples. Tal iniciativa exige uma equipa multidisciplinar de profissionais que compreendam a educação numa perspetiva ampla e integradora. Mais do que adaptar os recursos às características dos utilizadores, é essencial que estes sejam concebidos desde o início com base nos princípios de adaptabilidade, acessibilidade e suporte múltiplo.
Contudo, os avanços mais recentes na área da tecnologia educativa nem sempre têm considerado a inclusão digital de forma efetiva. Do mesmo modo, os currículos de formação inicial de professores nas universidades ainda não incorporam sistematicamente esta visão crítica e inclusiva da tecnologia (Sanz-Benito, Lázaro-Cantabrana & Grimalt-Álvaro, 2024). Como consequência, muitos estudantes universitários não adquirem os conhecimentos e competências necessários para exercer plenamente a docência num mundo digital, apesar da crescente centralidade do tema.
Simultaneamente, a Inteligência Artificial (IA) tornou-se uma realidade incontornável. O rápido progresso em áreas como o Processamento de Linguagem Natural (PLN) e a Visão por Computador (VC) tem revolucionado a geração de conteúdos acessíveis. Ferramentas desenvolvidas por grandes empresas tecnológicas — como a Google, Microsoft e Apple — já oferecem funcionalidades que permitem a criação automática de conteúdos alternativos, incluindo descrições visuais, legendas, transcrição automática e conversão de texto em áudio. No entanto, é fundamental reconhecer que a acessibilidade deve estar presente não apenas nos conteúdos produzidos, mas também nas próprias interfaces e processos de interação com essas ferramentas. Estudos recentes destacam lacunas significativas nessa dimensão (Acosta-Vargas et al., 2024; Khansa & Achraf, 2024; Glazko et al., 2023).
Além disso, longe de reduzir as desigualdades, a IA tem, em alguns contextos, agravado formas já existentes de exclusão digital. Como destaca o relatório de Gomez et al. (2024), persistem disparidades significativas relacionadas com género, localização geográfica e tipo de organização. Os dados do projeto DivinAI evidenciam a urgência de políticas públicas que compensem essas desigualdades. Afinal, a tecnologia não é neutra nem objetiva — e só contribuirá para uma educação democrática se estiver alinhada com os valores da cidadania, dos direitos humanos e do quadro normativo da União Europeia.
O presente número temático insere-se no âmbito do compromisso assumido pela quase totalidade dos centros de investigação em Ciências da Educação de Portugal, do qual fazem parte o labDERE/CIIE e o LE@D/UAB, de desenvolver, numa lógica de cooperação, uma linha de investigação transversal com o objetivo de promover uma compreensão crítica das implicações educacionais e sociais da IA, bem como de influenciar o design da IA para que melhor sirva à educação. O mesmo se aplica às produções científicas derivadas da investigação da Universidade da Extremadura sobre a utilização, a aplicabilidade, o interesse e o futuro da IA. Sobretudo em contextos educativos diversificados e inclusivos que possibilitem alcançar a equidade educativa e a justiça social.
Face ao exposto, o número temático tem como objetivo refletir criticamente sobre os seguintes eixos temáticos:
- Tecnologias inclusivas, inteligência artificial e educação;
- Inteligência artificial e inclusão digital;
- IA na educação e nos processos de avaliação;
- Acessibilidade em ferramentas educativas baseadas em IA.
Serão bem-vindas contribuições sob a forma de ensaios, análises, estudos de caso, revisões de literatura e investigações empíricas que abordem a tecnologia numa perspetiva inclusiva e crítica no âmbito da IA aplicada à educação. Esperamos que este número temático se constitua como um espaço de diálogo, partilha e produção de conhecimento sobre o papel das tecnologias digitais, especialmente aquelas assistidas por IA, no reforço da diversidade e da inclusão educativa.
Referências:
Acosta-Vargas, P., Salvador-Acosta, B., Novillo Villegas, S., Sarantis, D. & Salvador-Ullauri, L. (2024). Generative Artificial Intelligence and Web Accessibility: Towards an Inclusive and Sustainable Future. Emerging Science Journal. 8. 1602-1621. 10.28991/ESJ-2024-08-04-021.
Glazko, K. S. Yamagami, M., Desai, A, Mack, K. A., Potluri, V., Xu, X. & Mankoff, J. (2023). An Autoethnographic Case Study of Generative Artificial Intelligence's Utility for Accessibility. In Proceedings of the 25th International ACM SIGACCESS Conference on Computers and Accessibility (ASSETS '23). Association for Computing Machinery, New York, NY, USA, Article 99, 1–8. https://doi.org/10.1145/3597638.3614548.
Gomez, E., Porcaro, L., Frau Amar, P., Vinagre, J. (2024). Diversity in Artificial Intelligence Conferences. An analysis of indicators for gender, country and institution diversity from 2007 to 2023. Joint Research Centre. Publications Office of the European Union, Luxembourg, 2024, doi:10.2760/796551, JRC137550. https://publications.jrc.ec.europa.eu/repository/handle/JRC137550
Khansa, C. & Achraf, O. (2024). Digital accessibility in the era of artificial intelligence—Bibliometric analysis and systematic review. Frontiers in Artificial Intelligence, (7). Timothy Arndt (Ed), Cleveland State University, US. DOI=10.3389/frai.2024.1349668
Sanz-Benito, I., Lázaro-Cantabrana, J. L. y Grimalt-Álvaro, C. (2024). La formación de competencias en inclusión digital en los grados de Educación Infantil y Primaria de las universidades españolas: una necesidad aún por cubrir. Educar, 60/2, 321-335.
Datas importantes
- Submissão de artigos até 31 de outubro de 2026
- Publicação: agosto de 2027
Instruções para submissão
Seguindo as políticas da Revista ES&C, os/as autores/as podem submeter os seus textos em inglês, francês, espanhol ou português. A contribuição deve ser original, inédita e não pode estar sob revisão ou submetida para publicação em outro periódico.
As instruções para revisão podem ser encontradas aqui: https://www.up.pt/journals/index.php/esc-ciie/about/submissions
Para mais informações sobre este número especial, entre em contato com a coeditora convidada Angélica Monteiro (armonteiro@fpce.up.pt).
Sobre as Organizadoras Convidadas
Prudencia Gutiérrez-Esteban
Professora adjunta do Departamento de Ciências da Educação da Universidade da Extremadura. Dois períodos de investigação reconhecidos pela Agência Nacional de Investigação Científica de Espanha (2016 e 2022). O seu trabalho de investigação e produção científica caracterizam-se por contributos nas áreas da Formação de Professores, Tecnologia Educativa, Género e Educação e Inovação na Educação, através da sua participação em diversos projetos de investigação em avisos públicos competitivos nacionais e europeus, contratos de investigação e publicação de artigos científicos em revistas e livros indexados nacionais e internacionais. Além disso, coordenou projetos de inovação pedagógica no Ensino Superior financiados por avisos públicos competitivos e coordenou e lecionou cursos de formação de professores a nível de pós-graduação e de licenciatura.
Manuela Francisco (Politécnico de Leiria e Universidade Aberta/LE@D)
Doutorada em Educação a Distância e eLearning e mestre em Pedagogia do eLearning, desenvolve investigação na área do eLearning inclusivo, pedagogia e acessibilidade digital. Learning Designer e especialista em acessibilidade digital, no Politécnico de Leiria, desde 2007, e docente convidada na Universidade Aberta. Tem estado envolvida em vários projetos europeus (EduTech, RUN, ADLAB, EU4ALL), projetos e grupos de trabalho nacionais, como especialista em eLearning e acessibilidade digital, com diversas publicações nestas áreas. É membro integrado do Laboratório Educação a Distância e eLearning (LE@D/UID 4372/FCT) da Universidade Aberta, membro colaborador no Centro de Estudos em Educação e Inovação (CI&DEI/UID 5507/FCT) do Politécnico de Leira, membro da associação Accessible Portugal e foi membro da equipa de revisão da versão portuguesa das WCAG 2.0.
Lúcia Amante (Universidade Aberta/LE@D)
Licenciada em psicologia, mestre e doutora em Ciências da Educação. É professora na Universidade Aberta, Departamento de Educação e Ensino a Distância (DEED). Integra o Laboratório de Educação a Distância e Elearning da UAb (LE@D) onde investiga sobre pedagogia da educação online, designadamente sobre avaliação digital das aprendizagens. Foi coautora do Modelo Pedagógico Virtual da Universidade Aberta.
Angélica Monteiro (CIIE, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto)
Doutorada em Educação e mestre em Educação Multimédia. É professora auxiliar na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. É membro integrado do Centro de Investigação e intervenção em Educação (CIIE), onde co-coordena do Laboratório de Experimentação Digital e Investigação em Educação (labDERE). Os seus interesses de investigação incluem as questões de inclusão digital, cidadania, currículo, avaliação e e-learning no Ensino Superior.