Abismar-se do vivido

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GRAÇA MAGALHÃES
ELIANE BEYTRISON

Resumo

Abismar-se do vivido é um projeto de desenho, feito em colaboração, pelas artistas Graça Magalhães e Eliane Beytrison, com origem na estadia das artistas na aldeia de Álvaro -- quase integralmente destruída pelos fogos em outubro de 2017. O objectivo foi inscrever o desenho como referente iconográfico, politicamente participativo. O projeto procurou enquadrar a seguinte questão: pode o desenho ser uma ação integradora da paisagem? A hipótese colocada foi a seguinte: o reconhecimento do lugar, resgatado pela experiência do desenho, confrontado com o conhecimento e conduzido por pequenas cintilações, indícios, reaparições, identidades remotas ou sobrevivências vulneráveis, possibilitariam o desvelamento e fixação da paisagem. A abordagem, seria proposta através de Maria Zambrano, segundo a qual existirá a necessidade do sujeito – neste caso o desenhador – de ‘salvar’ o acontecimento vivido fixando-o, para que ele não se perca no abismo do vivido, “salvá-lo de ser sonho, de cair na condição do sonho se não deixar marca, se simplesmente passar e se for embora, de o salvar de ser sonhado se não se fixar.” (Zambrano, 1994: 25). Na passagem pelo território tratou-se da impossibilidade de adaptação ao tempo do acontecimento. Os fogos devastadores de 2017 tinham deixado aquela aldeia praticamente deserta, quase sem vida humana (menos de uma dezena de adultos, apenas uma criança em idade escolar). De que se trata, afinal, quando se fala de abandono de um território? Tratou-se de reconhecer que as comunidades deixam rastos, testemunhos e com eles se estabelecem interações ligadas à multiplicidade do tempo, o que é contado e o que se lhe sobrepõe, resiste, sobrevive. Uma poderosa presença que se tornará uma parte de nós. Neste sentido o território e a paisagem não são apenas um problema de equilíbrio de um ecossistema, constituem- -se também como uma fonte de estímulos perceptivos. Metodologicamente, aquilo que se pensou poder ser a realização de desenhos in loco foi, posteriormente, desenvolvido (de memória) no atelier. A proposta de trabalho derivou daquilo que Deleuze define como ‘ato de resistência’ (https://youtu. be/2OyuMJMrCRw); neste caso, a memória que emerge do sujeito e não a partir de modelos que visam a decifração do objecto representado. Imagens que resultam daquilo que a passagem pelos lugares é capaz de acionar, reveladas pelo uso técnico dos materiais, passando o desenhador a ser parte ‘integrante’ do desenho, ele próprio ‘assistindo’ ao ato de criação. Desenhos de paisagem que nascem da descontinuidade referencial, que surge da experiência do gesto confrontado com a memória. Alteridade profunda, fraturante relação com a revelação. O magnífico encontro entre o que perdura, ficcionado pela memória, e o que pode ser encontrado pelo “milagre” da ausência como essência da representação.

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Secção

Projeto

Como Citar

Abismar-se do vivido. (2026). PSIAX: Estudos E Reflexões Sobre Desenho E Imagem, 1(#8 - 2ª série), 79-86. https://doi.org/10.34626/psiax_2024_vol1_2196