A(s) pluralidade(s) da participação dos/as alunos/as na administração das escolas: ‘Incentivo a emancipar-nos’ ou ‘desperdício de tempo’?
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Resumo
A participação dos/as alunos/as na administração das escolas é frequentemente apresentada como expressão de autonomia e cidadania democrática. Contudo, essa promessa confronta-se com lógicas escolares marcadas pela performatividade, meritocracia e culturas gestionárias que perpetuam uma tradição adultocêntrica, centrando a gestão exclusivamente nos/as professores/as e criando certas resistências ou (des)valorização do interesse dos/as jovens em participar na administração das suas escolas. Neste contexto de inquietação, o artigo tem como objetivo analisar as formas e os sentidos da participação discente na administração escolar, identificando práticas, obstáculos e tensões que atravessam os processos de democratização das escolas, situando essa análise num cenário político-educativo crísico. Com base num estudo de caso de metodologia mista, apresenta-se um recorte qualitativo, que incluiu grupos de discussão focalizada com alunos/as, entrevistas com diretores/as e professores/as, e observação participante em quatro escolas públicas portuguesas, compreendendo práticas formais e informais de participação e as perceções dos/as diferentes atores. Os seus discursos evidenciam tensões entre o prescrito e o vivido, entre o direito à participação e a realidade nas escolas, apontando para a importância das culturas escolares no (re)conhecimento da voz discente. Ainda que atravessados por lógicas tecnocráticas de governação, os espaços escolares revelam-se essenciais para práticas de resistência e reinvenção democrática, desafiando os/as alunos/as a exercerem um papel político ativo na construção de uma escola mais participativa e democrática.
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